Deve o pensamento computacional ser introduzido no ensino? No ensino da disciplina de Matemática?
O Grupo de Trabalho de Matemática debruçou-se sobre as necessidades futuras relativas à educação matemática tal como são vistas por várias instituições a
nível mundial, nomeadamente do
Institute For the Future- IFTF
Aqui é
reproduzida uma parte do parágrafo 9.3.3 (p. 285-291) do documento Recomendações para a melhoria das aprendizagens dos alunos em Matemática (versão final - 27 de março de 2020), elaborado pelo Grupo de Trabalho de Matemática, que foi publicado na página da Direção Geral da Educação .
O Grupo de Trabalho de Matemática foi constituído em 2018 pelo Despacho n.º 12530/2018, de 28 de dezembro para "proceder à análise do fenómeno do insucesso, tendo em vista a elaboração
de um conjunto de recomendações sobre a disciplina de Matemática -
ensino, aprendizagem e avaliação."
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O IFTF (Davies,
Fidler & Gorbis, 2011) inclui entre
as competências chave para o mercado de trabalho as seguintes:
TRANSDISCIPLINARIDADE:
literacia e capacidade de compreender conceitos através de múltiplas
disciplinas; é preciso educar investigadores para que consigam falar a língua
de múltiplas disciplinas – biólogos que tenham compreensão da matemática e
matemáticos que compreendam a biologia; o trabalhador ideal da próxima geração
deve compreender profundamente pelo menos um campo, mas deve ter igualmente a
capacidade de conversar na linguagem de um vasto campo de disciplinas. (p. 11)
PENSAMENTO
COMPUTACIONAL: capacidade de traduzir grandes conjuntos de dados em conceitos
abstratos e compreender o raciocínio baseado nos dados, estando igualmente
ciente das suas limitações, sendo que mesmo os melhores modelos são
aproximações da realidade e não a própria realidade. (p. 10)
É
de fazer notar que a expressão pensamento computacional foi introduzida
por Jeannette Wing em 2006, tendo vindo a evoluir desde então. Segundo a
análise efetuada por Bocconi, Chioccarello, Dettori, Ferrari e Engelhardt
(2016), o pensamento computacional é normalmente encarado como uma metodologia
de resolução de problemas associada a um conjunto de conceitos e competências
como abstração, pensamento algorítmico e decomposição estruturada dos
problemas. O pensamento computacional não deve ser confundido com as chamadas
competências digitais ou literacia digital. O foco no pensamento computacional
pode mesmo ser associado a uma crítica implícita ao modo como a literacia
digital terá sido por vezes mais associada às tecnologias e ao uso de
ferramentas digitais do que às ideias e à ciência em que se baseia a tecnologia
da revolução digital. Embora apareça associado à programação de computadores, o
pensamento computacional é mais vasto. A programação pode ser vista como uma
forma de expressão e de concretização do pensamento computacional.
O
mesmo relatório analisa a integração do pensamento computacional nos currículos
de treze países (Portugal, outros onze países europeus e Turquia) com base nas
respostas a um inquérito dadas pelos respetivos ministérios da educação. Em
Portugal o pensamento computacional aparece no 1.º Ciclo do Ensino Básico
através do programa Iniciação à Programação no 1.º Ciclo do Ensino Básico,
e nas metas curriculares da disciplina de Tecnologias de Informação e
Comunicação nos 7.º e 8.º anos. Em França e na Finlândia o pensamento
computacional faz parte do currículo de Matemática. Na maioria dos países, a
principal razão para a inclusão do pensamento computacional no currículo é o
desenvolvimento das competências do século XXI e em alguns países, como a
Finlândia e Portugal, existe o objetivo específico de melhorar o desempenho dos
alunos e aumentar o seu interesse na Matemática (Bocconi et al., 2016)
O
pensamento computacional enquadra-se ainda na área de competências Saber
científico, técnico e tecnológico do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade
Obrigatória, de modo que os alunos sejam capazes de
executar operações técnicas, segundo uma
metodologia de trabalho adequada, para atingir um objetivo ou chegar a uma
decisão ou conclusão fundamentada, adequando os meios materiais e técnicos à
ideia ou intenção expressa. (Martins et al., 2017, p. 29)
Referências
Bocconi,
S., Chioccariello, A., Dettori, G., Ferrari, A., & Engelhardt, K. (2016). Developing computational thinking in compulsory
education – Implications for policy and practice. Luxembourg: Publications Office of the European Union.
Davies, A., Fidler, D., & Gorbis, M.
(2011). Future work skills 2020.
California: Institute for the Future for the University of Phoenix Research
Institute, Palo Alto. Obtido de www.iftf.org
Martins, G., Gomes, C., Brocardo, J., Pedroso, J., Carillo, J., Silva,
L., Encarnação, M., Horta, M., Calçada, M., Nery, R., & Rodrigues, S.
(2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. Lisboa: Direção-Geral
da Educação, Ministério da Educação.